RENDAS E FITAS

Alusio Azevedo

I

- Ol! exclamei eu, vendo saltar do bonde de Botafogo o meu querido Ernesto
Branco. Bons ares te tragam! Como vais tu? Mas que diabo de cara tens agora? 
Ests zangado?
- Ora! No me fales! No estou zangado; estou aborrecido. Aborrecido com esta 
vida infernal do Rio de Janeiro; aborrecido com este calor selvagem, este calor 
inimigo da civilizao e do trabalho; e aborrecido principalmente com as nossas 
patrcias, esses monstros de olhos sedutores e sorrisos virginais!
-  diabo! a cousa agora  mais grave... Dar-se- o caso de que o meu 
espirituoso amigo levasse tbua de alguma moa com quem estivesse para casar?...
- Hein?! Casar?! Eu?! Com quem?!
- Oh! com qualquer moa do teu gosto...
- Por qu ! Que mal fiz eu, para me condenarem assim, sem apelao nem 
agravo!... Casar! Casar com uma dessas criaturinhas que neste instante acabam de 
encher-me de indignao e de vergonha? Casar com uma dessas moas 
ignorantezinhas, pretensiosas e malcriadas? Oh, nunca! Nunca! Nunca! Antes ser 
co de cego; antes ser ministro do Sr. Floriano; antes ser leitor do Fgaro!
- Mas, que te fizeram, Santo Deus! para te ver neste estado de clera contra o 
sexo mimoso?... para te ver assim terrvel e feroz contra essas belas flores com 
alma, que so o encanto da nossa vida, o perfume do nosso lar, a segurana da 
nossa felicidade?...
- Que me fizeram? perguntas tu! Oh! dir-se-ia que nunca viajaste em um bonde em 
que vo patrcias nossas! Dir-se-ia que nunca cedeste o lugar a uma senhora, 
para v-la aceitar a tua fineza, sem voltar sequer o rosto, quanto mais dizer 
"Muito obrigada!"
- Acanhamento!...
- Qual acanhamento! So acanhadas para cumprir com to insignificante preceito 
de boa educao, mas no lhes falta desembarao para protestar com uma careta, e 
s vezes at com um muxoxo, quando lhes chega a vez de se incomodarem para te 
dar passagem!
E o modo afrontoso e impertinente com que elas observam e esmerilham, medindo da 
cabea aos ps, as pessoas que entram no bonde, ser tambm acanhamento ...
- Curiosidade de mulher...
- De mulher mal-educada! E' muito feio que uma moa, pressuposta inocente e 
virginal, ou mesmo uma senhora j casada ou viva, no possam ver entrar uma 
cocote no bonde, sem se voltarem de nariz torcido, sem a medirem com desprezo e 
azedume, arriscando-se a ouvirem uma merecida resposta! E no  preciso que seja 
uma de chapu tapageur e vestido de cor criard a pessoa que entre no bonde, para 
ser analisada deste modo; basta ser uma estrangeira, uma estrangeira que no se 
vista pelo detestvel gosto com que se vestem as nossas damas; quer dizer que 
no venha coberta de seda e veludo por um dia de sol ardente e no traga em cima 
de si todas as cores do cu e do inferno!
- Tu exageras!
- No exagero tal! Agora mesmo acabo de presenciar revoltado uma dessas cenas. 
Estava uma famlia ocupando o banco em frente do meu: uma velha, uma senhora de 
meia idade, e duas moas de quinze a vinte anos; todas as quatro tudo que h de 
mais tipo brasileiro e de mais ridculo.
O grupo formava uma orgia de cores, de flores e de fitas; uma loucura de sedas, 
de ls, de veludo, e de algodo.
Entra um casal americano do norte. O homem de cala e palet de brim, chapu de 
palha com toalha em volta, e guarda-sol de pano claro, a mulher com um singelo 
vestido de linho cor de palha, enfeitado de rendas da mesma cor, e na cabea um 
abat-jour de linho branco, preso despretensiosamente ao pescoo por duas pontas 
largas de cadaro.
Pois, meu amigo, no imaginas o rebulio que se produziu naquela famlia com a 
chegada deste casal, que alis, nada mais fez do que entrar, assentar-se e 
pr-se a conversar em voz baixa, natural e discretamente.
Oito olhos arregalados cravaram-se imediatamente sobre a americana com tal 
insistncia que a nobre senhora comeou a examinar-se, e perguntou depois ao seu 
cavalheiro se ela tinha em si alguma cousa que chamasse a ateno.
"Deus te livre!" disse a velha, com arrelia, dando um estalo de lngua e 
torcendo enojada a cabea, como para no continuar a ver um espetculo 
indecoroso.
"Iche! desdenhou por sua vez a quarentona. Esta gente no tem vergonha de sair 
assim  rua?... Parecem mascarados, Deus me perdoe!"
E as duas moas comearam, de leno contra a boca, a emitir consecutivas 
gaitadas de riso, e a remexerem-se no banco, e a cochicharem to 
impertinentemente, que os americanos voltavam a cabea de vez em quando, 
patenteando na fisionomia o mais completo ar de intriga e de assombro.
No ouvi o que eles disseram l entre si; vi, apenas, o desdenhoso movimento dos 
seus lbios e senti venetas de estrangular aquela famlia brasileira, to tola, 
to ridcula, to chinfrim!
E ainda me vens falar em casamento! Mas a idia que me d nimo para continuar a 
viver; a nica razo por que no me atiro ao mar; o meu nico momento de 
felicidade,  quando me lembro de que aqui no Rio de Janeiro, onde todos so 
mais ou menos casados, eu me conservo solteiro como no dia em que nasci! E, 
juro-te que no  da febre-amarela, que tenho medo, nem das bexigas, nem do 
beribri, nem da legalidade do Sr. Floriano, nem da queixada do Sr. Aristides,  
daquilo que ali vem. - Olha!
E Ernesto apontou para um grupo de trs mocinhas que se aproximavam de ns, 
muito risonhas, acompanhadas pela mame; e deitou a fugir como um louco em 
direo contrria, a gritar.
- Livra! Livra!
E foi-se.
O Combate, 15 de maro de 1892.
 
II
 
No, Ernesto, vem c. Senta-te aqui; conversemos tranqilamente. No comeces a 
gesticular como um louco e a dardejar paradoxos a torto e a direito! Ouve-me 
quieto e responde com bons modos, se no me queres ver tomar o chapu e 
desaparecer pela porta da rua.
- Vamos l!
- Foste ontem injusto e severo demais com as nossas patrcias. Concordo que nem 
todas as brasileiras meream a minha defesa; sei que h por a muita mocinha 
impertinente e muita senhora insuportvel, mas ningum pode negar que a 
brasileira em geral  meiga, virtuosa e asseada,
- No foi disso que tratei!
- Ouve. Tu conheces bem o tipo da inglesa, com a sua barriga de tbua, com o seu 
cabelinho louro grudado  cabea e enrolado pobremente sobre a nuca; com a sua 
cintura de lmina, muito estreita vista de lado, muito larga vista de frente; 
com os seus ps espalmados e longos, como uma canoa de pescador emborcada sobre 
a praia; conheces a famosa Miss, to celebrada pelo lpis de Gavarni; essa 
misteriosa criatura de olhos celestiais, que em viagem se parece com um 
guarda-chuva ingls, metido cuidadosamente dentro da capa, e que em casa, no 
interior, lembra um vaporoso e fino caramelo encimado por uma trouxa de fios de 
ovos. Conheces a mulher inglesa?.
- Se conheo! Thephile Gautier, o meridional romntico, o beduno francs, que 
viveu para adorar as mulheres, e que amava e cultivava os gatos, por no poder 
fazer o mesmo com a pantera (que, depois da mulher,  o bicho mais feroz de 
criao), Thephile Gautier dizia e repetia que as inglesas so as mulheres mais 
formosas do mundo!
-  exato. O que no impede que os outros franceses, ao v-las atravessar o 
boulevard, tenham, sempre para ela as pilhrias mais terrveis e os ditos mais 
ridculos. Mas, passemos adiante: conheces igualmente a espanhola?
- Oh! Pergunta-me antes se conheo Byronl No conhecer o tipo da espanhola!... 
Danante seguidilha de amor que se transforma em mulher! Oh! se conheo! 
Mantilha, leque, castanholas e touros! Sou louco por ela! Vamos adiante!
- Pois, meu amigo, fica sabendo que as espanholas tm cousas detestveis nos 
seus costumes.  mesa, por exemplo: no h espanhola, por mais bem educada, que 
no leve a faca  boca, como se fosse um saltimbanco engulidor de espadas; e 
todas elas lambem os dedos; tiram com a lngua o que fica de comida entre os 
dentes, e...
-  falso!  mentira! No prossigas,  caluniador! que te estrangulo aqui mesmo!
- E a italiana?...
- Oh! oh! O velho amor cavalheiresco! Beijos e punhaladas. Lbios grossos e 
quentes; punhais frios e penetrantes. Um conde assassinado ao luar, debaixo de 
uma ponte; a condessa veneziana fugindo com um tenor de olhos ardentes!...
Conheo! conheo! mas tudo isso cheira-me um pouco a macarro e realejo!
- Quando no cheira pior... porque, meu caro, debaixo de todo aquele romanesco 
lrico e daqueles transportes de paixo, com punhal, cabelos soltos e dentes 
cerrados, mal sabes o que vai! A italiana em geral  boa para ser vista de 
longe. S tem efeitos cenogrficos. No te aproximes muito dela, se queres 
conservar a bela impresso artstica que recebeste!
- E da francesa? que me dizes tu da encantadora francesa?...
- Digo-te que  a mais vulgar de todas as mulheres... a que menos tem a linha 
original...
- Socorro! Socorro! Este homem acaba de enlouquecer!
- No! No enlouqueci! No confundas a francesa com a parisiense. Fala-me desta, 
e eu te direi que a parisiense  a mulher mais feia e mais sedutora entre todas 
as filhas de Eva; eu te direi que s ela tem o segredo do amor que ri, e canta, 
e brinca; o segredo da amabilidade que satiriza e confunde como um piparote na 
ponta do nariz. No  uma mulher,  uma bonita fantasia feita de canonetas, 
aljfares de champagne e rendas valencianas!
- Seduzem-no mais o esprito do que os sentidos. E' a primeira mulher do mundo.
- No! A primeira mulher do mundo, meu querido Ernesto,  a brasileira.
- E por que no a portuguesa?
- Porque a portuguesa aos trinta anos, idade da grande afeio da beleza 
feminil, em geral comea a barbar e a criar umas singulares bochechinhas ao lado 
do queixo, que lhe tiram todo o encanto e lhe do ares de abadessa.
- E a brasileira ento? A brasileira aos trinta anos est coberta de sardas; j 
se no aperta; j se no penteia; anda em casa com o roupo desabotoado sobre o 
ventre; arrasta os chinelos, e, s vezes, fuma at cachimbo!
- No  verdade! Ou tens conscincia de que ests mentindo ou no sei que diabo 
de brasileiras conheces tu! Repito: a brasileira  a primeira mulher do mundo. 
Sela se rene tudo o que as outras possuem de melhor; ela tem a graa e o 
donaire da espanhola; tem o calor e o arrebatamento da italiana; tem o 
coquetismo da francesa, tem o asseio e a virtude das inglesas e o talento 
domstico da alem.
- S lhe faltam, para ser completa, as barbas  portuguesa!
- Mas tem uma cousa ideal, que nenhuma outra possui como ela, e  a meiguice, o 
carinho profundamente sincero, a dedicao sem limites pela pessoa amada. S a 
brasileira, s ela no mundo, tem o segredo de dar cafuns e de fazer certos 
quitutes e certos doces que nos arrebatam! S ela...
Mas Ernesto no me deixou prosseguir, ergueu-se indignado e exclamou, enterrando 
o chapu na cabea:
- Ora, vai-te para o diabo! Ests apaixonado por alguma pasteleira! E eu a dar 
ouvidos a este comilo!
E foi-se.
O Combate, 16 de maro de 1892.
